Hoje vamos falar de A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, um clássico da literatura nacional e dos vestibulares, terror dos adolescentes (nem de todos) e uma história de amor que, no fim, acaba te cativando.

Li nessa bela edição da Principis, recomendo bastante pelo formato, pela qualidade e pelo preço acessível.
A história, publicada em 1844 e considerada uma das obras inaugurais do Romantismo no Brasil, gira em torno de quatro estudantes de medicina (Augusto, Leopoldo, Fabrício e Felipe) que passam um fim de semana na casa da avó de Felipe, na Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro. A história começa com uma discussão para situar os estudantes e a cena inicial culmina numa aposta que move a história toda: Augusto, conhecido por ser volúvel e incapaz de se apaixonar por mais de três dias, afirma que jamais amará alguém de forma constante. Os amigos o desafiam a provar o contrário e Felipe e Augusto decidem que se Augusto sair da ilha apaixonado, deverá escrever um romance sobre sua “derrota”. Do contrário, se mantiver sua conduta volúvel de paixões efêmeras, quem deverá escrever o romance é Felipe.
Esta é uma história cujo desfecho e final fazem parte da construção da obra, portanto trataremos do andamento da trama na seção de Spoilers, abaixo, para não prejudicar a experiência de leitura.
“Amor não é efeito, nem causa, nem princípio, nem fim, e é tudo isso ao mesmo tempo; e uma coisa que… sim… finalmente, para encurtar razões, amor é o diabo“.
É importante reforçar que o autor era do alto escalão cultural do Brasil no meio do século XIX. Nascido no Rio de Janeiro, formou-se em Medicina e foi professor de História e Geografia no tradicional Colégio Pedro II, chegando a atuar como deputado provincial. A Moreninha teve um enorme apelo popular na época, tornando o autor imediatamente conhecido no cenário literário, apesar de sua formação em Medicina.
“Pois ainda não observaste que o verdadeiro amor não se dá muito com os ares da cidade?“.
OPINIÃO: Esse é um livro que me cativou imediatamente. Apesar da pequena barreira linguística no início, uma vez que os estudantes usam muitos maneirismos e “gírias” de sua época, a leitura é agradável e o leitor se sente num “clima ameno” durante a leitura, como uma espécie de porto seguro literário. A obra não carrega grandes suspenses nem tem entraves e discussões políticas ou éticas relevantes, de forma que pode ser usado como “leitura de descanso”, por assim dizer. Eu havia acabado de ler Cujo, que basicamente é tensão do início ao fim, então A Moreninha foi praticamente um bálsamo relaxante.
É uma leitura curta e interessante. A história é bastante previsível e você infere a conclusão antes da metade do livro, mas isso não impede o prazer na leitura. Há também muita informação sobre a sociedade e os costumes da época (quase 200 anos atrás), o que é sempre bacana para os nerds de história, como eu.
Um ponto que não gostei, mas entendo ser comum na época, é a “infantilização” das características amáveis das personagens femininas. O agradável é sempre uma “mãozinha pequena”, um “pezinho minúsculo”, uma “boquinha” e por aí vai. Carolina conta com 14 anos na trama, Augusto acredito que não seja mencionado, mas é estudante de Medicina, então fica evidente a diferença de idade de ambos. Hoje seria pedofilia, na época era culturalmente aceitável e até esperado. Não vou entrar nesse mérito, mas confesso que me incomodou.
Eu não li A Moreninha no colégio, não precisei ler para o vestibular e, portanto, tive uma leitura inicial da obra agora. Talvez se esse não fosse um clássico da literatura nacional eu não tivesse dado uma chance para a leitura que parece muito prosaica, por assim dizer. No entanto, conhecer o pano de fundo das obras é essencial para fazer um esforço na primeira leitura. Neste caso valeu bastante a pena, felizmente.
VALEU A LEITURA? Sim.
ATENÇÃO: abaixo virão SPOILERS sobre a obra. Se você não quer saber detalhes da história, esta resenha acaba por aqui. Muito obrigado por sua leitura.
Na casa da família de Felipe, na ilha, Augusto conhece Carolina, uma jovem espirituosa e encantadora, chamada carinhosamente de “Moreninha”. Entre provocações, diálogos irônicos e momentos de sensibilidade, os dois começam a se aproximar, por vezes em conversas às custas dos demais participantes da trama. Augusto conquista a confiança da avó da garota e vê que ela não é uma pessoa superficial e fútil, como poderia ter imaginado. Ela trata com cuidado, inclusive, os criados.
Por volta da metade do livro, descobrimos que Augusto não se apaixona de fato por outras pessoas porque carrega a lembrança de um amor de infância, uma garota que conheceu anos antes na praia, sem jamais saber seu nome verdadeiro, para a qual ele havia prometido fidelidade eterna.
Ao final, é revelado que Carolina é (supresaaaa) a garota em questão, portanto trata-se de um amor “predestinado”. Com isso, há um diálogo exagerado, no melhor estilo romântico, no qual Carolina aceita o amor de Augusto após expurgar o fantasma do passado entre eles.
Com isso, Augusto perde a aposta feita no começo do livro e precisa escrever um romance sobre como encontrou o amor na ilha. Esse romance é, justamente, “A Moreninha”, usando uma metalinguagem bastante interessante ao final.
Não dá pra dizer que fiquei surpreso com a história, porque o desfecho fica evidente a partir do momento que Augusto revela que amou uma garota na infância que tinha justamente a diferença de idade dele com Carolina. Como ela é a única personagem feminina relevante da trama, o leitor pode facilmente inferir o final, o que não estraga a experiência da leitura, como comentei acima.
Por Rafael D’Abruzzo


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