Hoje falamos sobre Oração para Desaparecer, de Socorro Acioli. Um livro curto, poético e muito bonito.

Conheci a Socorro na FLIPOP de 2019 quando ela estava falando sobre o realismo mágico no livro A Cabeça do Santo, obra incrível de sua autoria que não vou abordar aqui, mas já fica a dica de leitura.
Oração para Desaparecer é uma obra bem diferente, mas também carregada de poesia e reflexões incríveis que vou exemplificar em citações ao longo desta resenha.
“Vida e morte são mistérios que ninguém alcança. Tudo o que se fala sobre nascer e morrer é mera aposta. A morte é dolorosa, mas talvez o nascimento seja pior, e minha desgraça estava ali, entre uma coisa e outra.”
A trama versa sobre a história de uma mulher que é desenterrada numa vila em Portugal sem saber nada sobre si, apenas que é uma Ressurecta, ou seja, alguém que burlou a morte de alguma forma.
Ela é acolhida pela família que a recebe e a desenterra e se envolve de forma profunda com eles, enquanto aprende sobre o funcionamento da vida e do mundo, já que ela esqueceu de tudo.
Entre recordações e reflexões, ela vai se redescobrindo até descobrir (ou conhecer) seu lugar no mundo, quem era e como foi parar debaixo da terra.
Não darei spoilers aqui pois entendo que comprometeria a experiência de leitura, pois as revelações de roteiro são importantes nesta obra.
“Só nos resta aceitar e seguir vivendo porque estamos nessa aventura às cegas. Todos nós. Quando a gente acha que entendeu tudo, o caos aparece para relembrar que não somos coisa nenhuma.”
OPINIÃO: Esta leitura foi bem curta, coisa de dois dias. Gosto de livros curtos que entregam uma experiência fluida e não sacrificam o teor reflexivo e filosófico em prol de agilidade no roteiro. Oração para Desaparecer tem uma história lenta apesar de suas poucas páginas e isso é um trunfo numa época em que a literatura precisa ser rápida e óbvia porque os leitores estão dividindo a atenção do livro com o celular. Visto por esse ângulo, este livro é desafiador.
As reflexões sobre as escolhas e a inconstância da vida são as que gostei mais:
“A partir daqui a história da tua vida é tua. As pessoas não têm essa consciência, de que escrevem uma história enquanto vivem.”
Aqui também vemos que parte da força da narrativa da Socorro reside na sua capacidade de estabelecer o amor como força motriz da vida:
“A vida é só essa coisa atropelada, que passa muito rápido e as únicas pessoas felizes são as que atravessam o tempo entregues ao amor. De certa forma, até aqui fui feliz.”
Na narrativa, fica claro que o passado pode ser pouco importante perante novos acontecimentos. Embora seja um peso muitas vezes, ele não necessariamente precisa ser uma âncora. O mais importante é firmar relacionamentos com pessoas que nos acompanham e topam participar da jornada aceitando quem somos.
“o grande erro da vida é perguntar para onde vamos. Isso não importa. O certo é decidir com quem.”
O livro, embora intimista, trata também de temas importantes como intolerância religiosa, cultura de povos originários e identidade cultural brasileira enquanto povo forjado pela forca e pela discriminação, tudo isso sem um tom professoral que traz reflexões profundas, mas sem a sensação de estarmos sendo doutrinados. Entendo que há muito mérito também nessa abordagem e gostei muito das coisas que aprendi nesse livro sobre os tremembés, por exemplo, e sobre os cavalos-marinhos.
Algumas autoras e autores têm uma capacidade de escolha de palavras que eu acho simplesmente fascinante. A Socorro é uma delas. Vida e Morte são temas que rendem histórias de milhares de páginas. Esta história tão curta e tão poética nos mostra que, às vezes, menos é mais. A escolha das palavras certas traz um peso na história que me lembrou outros clássicos curtos e assertivos, como A Morte de Ivan Ilitch e O Grande Gatsby.
Uma leitura rápida, agradável e sentimental que transpira brasilidade e espiritualidade.
VALEU A LEITURA? Sim. A história é muito bonita e flui muito bem até o final que achei, inclusive, muito satisfatório.
Por Rafael D’Abruzzo


No responses yet