Leiga Leitura

Literatura, Resenhas Literárias e Dicas de Leitura

Hoje falamos sobre “O Vermelho e o Negro”, um clássico de Stendhal e, sem sombra de dúvidas, um dos melhores livros que já li. Esta provavelmente vai ser a resenha mais longa deste glorioso site até hoje, então vamos lá. Peguem suas pipocas e suas jujubas.

Conheci esta obra em 2023 por meio do Clóvis de Barros Filho, no podcast “Lendo com o Clóvis”, em parceria com a editora Principis (cuja versão eu acabei adquirindo recentemente). O professor Clóvis faz inúmeras reflexões e digressões durante o programa, intercala a leitura com análises históricas e filosóficas que engrandecem e complementam a leitura. Recomendo fortemente que ouçam o “Lendo com o Clóvis”, em especial d’O Vermelho e o Negro. Agora, na “releitura”, tive outras percepções e entendimento sobre a história e o peso da obra. Como dizem: mais importante do que ler um clássico é relê-lo.

“Pode-se adquirir tudo na solidão, menos o caráter”.

Stendhal é o pseudônimo de Marie-Henri Beyle (1783–1842), escritor francês considerado um dos grandes nomes do romance realista do século XIX. Era um profundo admirador de Napoleão Bonaparte (como fica claro nesta obra) e viveu o período das guerras napoleônicas, o que influenciou sua visão de mundo e sua escrita.

O Vermelho e o Negro é uma obra carregada de críticas e reflexões sobre o cotidiano da época e sobre a condição humana, especialmente no que tange à ambição e ao amor, sentimentos que carregam o protagonista em suas aventuras e desventuras. Falando no protagonista, vamos a ele, pois se trata de uma personagem realmente complexa e interessantíssima. A começar por esta pérola aqui, dita por ele:

Cada um por si neste deserto de egoísmo que se chama vida“.

O romance conta a história de Julien Sorel, um jovem pobre, inteligente e extremamente ambicioso que vive na França do século XIX, após a queda de Napoleão Bonaparte. Seu pai é um carpinteiro que detesta os modos do filho, especialmente seu interesse pelas letras e pelo latim. Julien, por sua vez, despreza sua origem humilde e sonha em ascender na sociedade marcada por classes sociais muito bem definidas. Na sua situação de camponês, Julien vislumbra dois tipos de escalada social: glórias militares (o “vermelho”, símbolo do exército napoleônico), ou a Igreja (o “negro”, símbolo da batina clerical). Como a queda de Napoleão inviabilizou a primeira alternativa, em especil para os pobres, ele opta pela segunda, dada a sua habilidade com o latim e por as barreiras sociais no clero serem mais “borradas”.

A obra é carregada de pensamentos e ideias sensacionais, fazendo o leitor refletir e engradecendo não só a obra em si, mas também os personagens. O Vermelho e o Negro conta com personagens riquíssimas e complexas, o que torna a leitura mais interessante a cada página. Selecionei algumas das citações que entendo mais marcantes e as coloquei ao longo desta resenha, como vocês já perceberam. Aliás, aqui vai uma outra:

Um romance é um espelho que passa por uma longa estrada. E ora reflete ao vosso olhar o azul do céu, ora a lama dos pântanos à margem. E o homem que carrega consigo será acusado de ser imoral! Seu espelho mostra a lama e vocês acusam o espelho! Acusem antes o caminho onde está o pântano, e antes o inspetor de estradas que deixa a água acumular e pântano se formar”.

Vamos então à história em si. Desta vez, vamos fazer diferente, pois dividir a sessão de spoilers seria muito complicado numa obra tão grande e com tantas referências aos eventos. Desta forma, vamos tratar da história toda, do começo ao fim. A seção de “Opinião” desta resenha vai servir como uma conclusão, pois eu já vou dando a minha opinião conforme conto a história.

ATENÇÃO: abaixo virão SPOILERS sobre a obra. Se você não quer saber detalhes da história, esta resenha acaba por aqui. Muito obrigado por sua leitura.

No início do livro, conhecemos a cidade de Verrières no franco-condado, onde moram os primeiros personagens da trama, inclusive Julien. Por uma querela e disputa de egos entre os membros da alta-sociedade de Verrières, o prefeito da cidade, Monsieur de Rênal, contrata Julien como preceptor em sua casa, para ensinar latim aos seus filhos. Na casa dos Rênal, Julien conhece e inicia um relacionamento com Madame de Rênal, esposa do prefeito.

Julien, admirador de Napoleão, tem verdadeiro desdém por aquela sociedade burguesa baseada na briga de egos, de quem tem mais cavalos, de quem tem mais flores no jardim, de quem fez isso diferente daquilo para provar que tem mais dinheiro e por aí vai. Isso fica claro em diversas partes do livro, mas destaco o seguinte:

“Mostraram-lhe a casa toda. Tudo era magnífico e novo, e, contavam-lhe o preço de cada móvel. O rapaz sentia algo de indecoroso ali, um cheiro de dinheiro roubado. Todos na casa, até os empregados, pareciam querer defender-se do desprezo”.

Apesar de seu desdém, Julien vê em Madame de Rênal uma pessoa singular e amorosa, carinhosa com os filhos, dotada de inteligência e personalidade subestimadas pelo marido e, principalmente, infeliz. As personagens femininas do livro inclusive, são as mais interessantes na minha opinião.

O amor entre Julien e Madame de Rênal se inicia com uma quebra de expectativas. Ao chegar na casa de seu novo trabalho, Julien é recebido pela esposa do prefeito que vê alguém jovem e inexperiente adentrar em seu lar. Isso a alegra, pois ela esperava um preceptor antiquado e violento com os filhos. Julien jura que jamais baterá nos garotos e ela imediatamente passa a gostar dele. Não estamos aqui falando de amor ainda, mas do respeito de uma pessoa rica por uma pessoa pobre, o que já era incomum na época.

O relacionamento vai se desenvolvendo e eles efetivamente têm um caso. Julien fica apaixonado por Madame de Rênal e ela corresponde (ou vice-versa, fica difícil definir quem se apaixonou primeiro). A relação entre eles é permeada por culpa e angústia, especialmente por parte dela, mas é inegável que estão perdidamente apaixonados. Nenhuma paixão ou amor no livro parece vir sem um ônus tão grande quanto o benefício, ou ainda pior.

O caso se desenrola por bastante tempo, pois o prefeito praticamente ignora a esposa e passa os dias pensando em como obter mais dinheiro e mais poder. Por fim, o ciúme da criada de quarto de Madame de Rênal por Julien faz com que a situação desande para os pombinhos. Com o adultério em vias de ser descoberto e confirmado, o casal cria um plano para despistar o prefeito e Julien é enviado ao seminário de Besançon, para focar nos seus estudos e abaixar a poeira.

“O que torna a dor do ciúme tão aguda é que a vaidade não pode nos ajudar a suportá-la”.

No seminário, Julien se vê preso num ambiente inóspito e castrador. As regras são rígidas e ele é tido pelos colegas como arrogante e pernicioso por conta de seus conhecimentos sobre obras de autores antigos não aprovados pela igreja e pelo jansenismo, doutrina muito forte na época e bastante restritiva. No seminário, Julien aprende duas lições importantes: a primeira é que, para sobreviver, deve esconder sua inteligência. A segunda é que o verdadeiro poder não está na fé, mas na habilidade de parecer devoto. Nosso protagonista torna-se cada vez mais dividido entre seu caráter e sua máscara social.

“Aos olhos dos outros, era culpado de um vício grave: ele pensava, julgava por si mesmo, em vez de seguir cegamente a autoridade e o exemplo”.

No seminário, Julien se relaciona com o abade Pirard, um homem íntegro e austero, que reconhece o talento de Julien e o toma como protegido. Eventualmente, o abade é afastado por intrigas internas da igreja e consegue para Julien uma recomendação em Paris, pois a permanência dele no seminário ficou ameaçada com a saída de seu protetor e a sua má-reputação entre os colegas e demais dirigentes.

A recomendação do abade Pirard inicia a segunda parte do livro, em Paris. Essa segunda fase é (ainda mais) sombria e corruptora do caráter de Julien, já enfraquecido por sua ambição.

Em Paris, por indicação do abade, Julien torna-se secretário do Marquês de La Mole, um nobre de alta estirpe. Julien é contratado para escrever e copiar cartas para o Marquês e, com o tempo, envolve-se profundamente com a realidade da nobreza e, principalmente, com a filha do Marquês, Mathilde de La Mole, uma jovem orgulhosa de sua origem e (o mais importante) extremamente entediada da aristocracia que a cerca. Mathilde tem diversos pretendentes mas não deseja nenhum. Participa de conversas e bailes e mostra-se constantemente entediada.

Julien passa a frequentar os mesmos ambientes que a alta nobreza e vê a rede de intrigas, jogos de poder e a realidade subjetiva na qual todos parecem envolvidos. As reflexões do narrador, de Mathilde e de Julien nesta parte do livro são um show à parte de crítica e filosofia.

Com o tempo, o Marquês passa a confiar em Julien e o envolve em intrigas políticas que deturpam ainda mais a mente do protagonista, que já tinha uma espécie de síndrome de perseguição. Ao participar dessas missões, Julien se vê no centro de uma possível revolta e percebe que a sociedade não está tão longe de uma nova guerra, como ele imaginava.

Eu particularmente achei esta parte das intrigas políticas meio jogada no livro, não me pareceu levar a lugar algum. Mas deve ter feito sentido na época, para Stendhal escrever. Não interfere na apreciação da obra, mas podia ter economizado umas páginas.

Ao passo que Julien é envolvido nas intrigas políticas, o relacionamento com Mathilde se intensifica. Ele descobre que Mathilde é fascinada por figuras históricas trágicas, em especial Marguerite de La Mole, uma nobre do século XVI ligada à corte francesa que ficou famosa por seu amor trágico por Joseph Boniface de La Mole, que foi executado por conspiração durante o reinado de Carlos IX da França. Segundo a história (que encanta Mathilde), Marguerite teria recolhido a cabeça decapitada de seu amante e a enterrado com devoção. Apesar de suas idiossincrasias (nobre tem idiossincrasias, quem tem esquisitice é plebeu), sua beleza e posição social lhe angariam diversos pretendentes, mas, como dito acima, ela despreza os jovens aristocratas ao seu redor. Com o tempo, ela passa a ver em Julien uma fuga do óbvio e ele vê nela uma forma de concretizar suas ambições.

Porém, Julien é orgulhoso e desenvolve com Mathilde um intrincado jogo de poder. Alternam orgulho, frieza e paixão de forma metódica. Nenhum deles quer se mostrar apaixonado primeiro. Julien recorre, inclusive, a uma espécie de “coach amoroso” da época. Essa parte do livro é cômica e, infelizmente, atual. Inclusive a famigerada técnica do “ignora que ela vai se interessar” aparece no livro. Um show de sedução do século XIX.

Como desgraça pouca é bobagem, Mathilde engravida de Julien. Para evitar um escândalo, o Marquês tenta afastar Julien de sua família, mas acaba reconsiderando e lhe concede um título de nobreza e uma patente militar. Julien alcança, assim, o ápice de sua ambição: está prestes a participar do poder militar (tal qual Napoleão) e, de quebra, ainda poderá ingressar na aristocracia.

Só que aí a primeira parte do livro vem para destruir a segunda parte. Sensacional, palmas para Stendhal.

“O amor é como a febre: nasce e passa sem a menor intervenção da vontade”.

O Marquês vai buscar mais referências sobre o seu potencial futuro genro. Ao sondar sobre o passado de Julien, o Marquês acaba trocando correspondências com Madame de Rênal. Ela, pressionada por seu confessor, (um padre local que odeia Julien) talvez inclusive tomada por desgosto e ciúme, descreve Julien como um alpinista social que busca se infiltrar nas famílias de patamar mais elevado e seduzir seu membro mais fraco, no caso ela própria e Mathilde. O Marquês se enfurece e cancela o casamento. Todas as ambições de Julien, arduamente conquistadas, vão por água abaixo em poucos segundos.

Julien parte para Verrières e atenta contra a vida de Madame De Rênal dentro da igreja local, durante uma missa, desferindo-lhe dois tiros. É preso e condenado à morte, apesar das súplicas de Mathilde e da própria Madame de Rênal, que sobreviveu ao atentado e, ainda apaixonada, busca livrar Julien da morte.

A prisão funciona para Julien como um restaurador de sua sanidade. Ele percebe que sua ambição o levou a cometer esse crime e não deseja a libertação ou a sentença de inocente que Mathilde e Madame de Rênal tentam, em vão, obter. Ele poderia apelar à emoção do júri usando seu carisma, juventude e beleza, mas não o faz. Em vez disso, afirma sua culpa por um crime premeditado e faz um um discurso acusatório contra a sociedade que pune um jovem pobre por ousar ascender. Resumindo, como diz um pessoal aí hoje em dia, Julien resolveu “lacrar” no tribunal.

Madame de Rênal visita Julien incontáveis vezes na prisão, para horror de seu marido, o prefeito, e daqueles que com ela convivem. Julien compreende que sempre a amou mais do que a todos, inclusive Mathilde, que ele considera agora uma simples paixão. Sua ambição turvou o amor e a alegria com ambas. Como diz o narrador da obra: as verdadeiras paixões são egoístas.

Ao passo que Madame de Rênal e Julien se entendem, Mathilde se distancia da pessoa de Julien e passa a vê-lo como um herói romântico. Idealiza seu amor por ele e passa a desempenhar um papel, inspirado na sua antepassada, Marguerite de La Mole. Ela passa a amar a ideia de Julien e não Julien em si, que está apaixonado por Madame de Rênal.

“Deve-se admitir, cara amiga, que as paixões são um acidente da vida, mas esse acidente só se encontra nas almas superiores”.

Cabe aqui informar que o último episódio do “Lendo com o Clóvis” traz uma reflexão sobre a obra que eu jamais conseguiria igualar nesta resenha. Se não forem ouvir o programa inteiro, mas concluírem a leitura, ouçam ao menos o último episódio. É ouro puro.

Julien, em paz com sua sina, é decapitado. Mathilde realiza para ele um enterro teatral e consegue ficar com a cabeça de Julien, perfazendo sua máxima fantasia amorosa.

O final do livro é avassalador. Na última frase do romance, descobrimos que Madame de Rênal morreu três dias após a execução de Julien, abraçada aos filhos, presumivelmente de desgosto. Mathilde parece completamente apaixonada por Julien em suas atitudes exageradas, mas quem o acompanha na morte, quem vai de fato buscá-lo para permanecer para sempre ao seu lado é Madame de Rênal. O amor entre ela e Julien era complicado, travado, reprimido e infiel, mas verdadeiro para ambos. Julien tenta matá-la não por ódio, mas por desespero. Justificável? Jamais. Louvável? Muito menos. Mas trágico… sem dúvida nenhuma.

OPINIÃO: Poucos livros me deram tanto prazer na leitura como O Vermelho e o Negro. Stendhal fez um trabalho primoroso de narração, personagens, diálogos e ambientação. Julien é ambicioso, arrogante, machista (não vamos passar pano para contexto histórico aqui não), violento e impetuoso. Isso não faz dele um anti-herói ou alguém desprezível, mas traz complexidade à personagem. A trama só existe como é por conta das qualidades e defeitos de Julien. Qualquer um com um parafuso a mais na cabeça teria evitado toda essa confusão, mas essa é a graça do livro, da literatura. É factível, mas não é provável.

As digressões de Stendhal são pontuais e curtas, geralmente dentro da mente dos personagens. Não há parágrafos infindáveis de análises como em outros autores, mas nem por isso a obra carece de profundidade em suas análises filosóficas e psicológicas. Muito pelo contrário, O Vermelho e o Negro não só transmite a mentalidade da época em que foi escrito, o zeitgeist, mas também traz reflexões acuradas e críticas a diversas ideias da época, como o iluminismo, o jansenismo e até um marxismo “Avant la lettre” (“Oh là là, vamos usar francês aqui, oui. Eu sei francês? Não, mas estou na vibe do livro).

A consciência de classe de Julien é questionável, pois ele é egoísta. Ele tem muito mais uma consciência de si próprio e da sociedade que o cerca no sentido de conhecer as dificuldades de ascensão social do que, de fato, consciência de classe como proletariado ou algo nesse sentido. Ele despreza sua origem humilde pois não deseja ser carpinteiro como o pai. Julien quer ver o mundo e, para isso, na época, o caminho era o exército ou a igreja. O vermelho ou o negro. Isso não faz dele um Caco Antibes francês que tem horror a pobre, mas sim uma personagem ressentida, calculista (exceto no que diz respeito ao amor por Madame de Rênal) e consciente de suas dificuldades.

As críticas mais contundentes da obra, ao meu ver, são as críticas sociais aos novos ricos e à nobreza. Os primeiros são frenéticos na busca por status e por dinheiro, mas são desprezados pela nobreza que tem suas próprias preocupações, entre elas as revoltas, as intrigas e o tédio. É notável na obra que a nobreza não liga para os burgueses nem para os camponeses, ao passo que os burgueses precisam se destacar entre si e, acima de tudo, se destacar do campesinato. Julien enxerga isso muito bem e usa os medos e problemas de cada classe social a seu favor.

Naturalmente tudo dá errado no fim, mas é por uma boa causa: para entreter a nós, leitores dessa obra magnífica.

VALEU A LEITURA? Sim, absolutamente. Um dos melhores livros que já li (e reli) na vida e pretendo reler mais algumas vezes nos anos futuros.

Uma obra prima, sem dúvida.

Por Rafael D’Abruzzo

No responses yet

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *