Hoje falamos sobre As Intermitências da Morte, de José Saramago! Neste hiato aqui do blog eu li diversos livros do autor e peguei dois para resenhar, este e “A Caverna”, que virá no futuro. De toda forma, recomendo fortemente Ensaio Sobre a Cegueira, O Homem Duplicado e Evangelho Segundo Jesus Cristo. Todos são excelentes, mas não serão objeto de resenha aqui, ao menos por enquanto. Aliás, eu não li nenhum livro minimamente ruim do do Saramago, então já tomo a liberdade de indicar o autor de olhos fechados (ou cegos).

Eu tenho um interesse bastante grande na forma como a humanidade como um todo e como nós, indivíduos, lidamos com a nossa mortalidade. Isso está bastante explicitado em um ou dois artigos que publiquei. Desta forma, pelo tema, este livro me conquistou imediatamente. Vamos à sinopse:
O romance começa imediatamente com uma situação absurda: em um determinado país (não-explicitado, mas subentende-se ser Portugal pela nacionalidade do autor e pelos modos dos personagens), de repente, ninguém mais morre. A partir do primeiro dia do ano corrente da história, a Morte simplesmente “entra em greve” e decide não matar mais ninguém.
Inicialmente, isso parece algo positivo, afinal, ninguém mais sofre perdas pessoais ou teme a finitude. No entanto, rapidamente surgem consequências caóticas, como hospitais e asilos superlotados com pessoas em estado terminal que não conseguem morrer e as famílias entram em crise emocional e financeira ao cuidar indefinidamente de parentes sem esperança de recuperação.
Empresas funerárias entram em crise, enquanto seguradoras e o governo enfrentam problemas inéditos. Aqui cabe a observação de que a igreja (as religiões como um todo) é uma das mais afetadas e entra em colapso teológico, pois sua doutrina depende da morte e da vida após ela. Falaremos mais disso na seção de opinião.
Com o tempo, surge um mercado clandestino de famílias levando seus doentes para países vizinhos onde a morte ainda trabalha, criando uma espécie de “tráfico de moribundos”.
Enfim, a Morte decide voltar, mas com uma nova regra: ela passa a enviar cartas de cor violeta avisando às pessoas que elas morrerão em sete dias (Samara, é você?). Isso permite que todos se preparem para o fim e a sociedade se reorganiza em torno dessa nova previsibilidade.
Neste ponto, a narrativa muda de foco e se torna mais intimista e menos social. Acontece que uma das cartas enviadas volta sem ser entregue. Diante deste fato inédito, a Morte assume forma humana para investigar o caso e descobre que o destinatário é um violoncelista, cuja vida banal contrasta com o mistério de sua sobrevivência. À Morte escapa o entendimento do motivo de justamente alguém tão medíocre escapar de sua inexorabilidade.
A Morte passa a observar o violoncelista e experimenta sentimentos humanos, especialmente o amor. Isso transforma completamente sua natureza e leva a uma nova interrupção: a Morte volta a falhar, sugerindo que, enquanto houver amor e humanidade, até mesmo a finitude pode ser suspensa.
OPINIÃO: As Intermitências da Morte levanta questões importantes sobre como lidamos com a morte tanto de forma coletiva (social) quanto individual (psicológica). A dimensão social da obra levanta questões importantes como a importância do Estado, da família e da religião. A crítica ao cristianismo é óbvia, pois o principal mistério desta religião é justamente a morte e ressureição de Jesus. A principal preocupação da igreja no livro é a sua própria existência e continuidade, pois sem a morte o cristianismo deixa de fazer sentido, tanto em sua essência quanto na forma de manter os fiéis por medo da danação eterna e por almejarem o “além”.
“A igreja, como não podia deixar de ser, saiu à arena do debate montada no cavalo-de-batalha do costume, isto é, os desígnios de deus são o que sempre foram, inescrutáveis, o que, em termos correntes e algo manchado de impiedade verbal, significa que não nos é permitido espreitar pela frincha da porta do céu para ver o que se passa lá dentro.”
Independente da crítica à religião, presente em diversas obras do Saramago, vemos também uma crítica ao tabu que é a própria morte na nossa sociedade. Em diversos lugares e círculos sociais, apenas falar sobre a morte já é mal visto e taxado de desagradável, de “bad vibes“. Ninguém quer lembrar que vai morrer, embora todos saibamos que vamos um dia. Esse dia poderia ser agora, enquanto eu escrevo, ou no seu agora, enquanto você lê. A morte é inexorável, mas morte e finitude são coisas bem diferentes, como apontei neste artigo aqui que já listei lá em cima.
“Até onde a minha imaginação consegue chegar, ainda vejo uma outra morte, a última, a suprema, aquela que haverá de destruir o universo, essa que realmente merece o nome de morte, embora quando isso suceder já não se encontre ninguém aí para pronunciá-lo, o resto de que temos estado a falar não passa de pormenores ínfimos. Portanto, a morte não é única.”
Para os familiarizados com a escrita de J. R. R. Tolkien, a morte é a condição extrema da humanidade. Aos olhos imortais, os homens vivem rápido demais, preocupados demais e constroem rápido demais. O fato de sermos mortais é, justamente, o que impulsiona o progresso e as mudanças sociais, pois queremos vê-las em nosso tempo de vida. Nossos projetos são mensais, trimestrais, anuais, quinquenais. São poucas as sociedades que têm planos que enxergam 50 ou 100 anos à frente, pois isso atrapalha a eleição daqui a quatro anos. Precisamos mostrar o que fizemos num curto espaço de tempo para nos promoverem, para votarmos em nós, para nos acharem indispensáveis e insubstituíveis. A morte é a antítese de tudo isso, ela é a suprema destruidora de planos e precisamos conviver com isso.
A sociedade da informação em que vivemos é mestra em nos fazer esquecer de nossa mortalidade. Posts, reels, stories, dancinhas no tik tok e rolagem infinita comem nosso tempo como cupins comem madeira velha. De vez em quando bate a crise: estamos vivendo ou apenas rolando o Instagram? Estamos vivendo ou juntando dinheiro para pagar o funeral? Estamos vivendo ou morrendo “ao vivo”, para deleite das curtidas de outros moribundos digitais?
“A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos.“. A frase não é minha, é de John Lennon. Quais planos estamos fazendo? Estamos tendo tempo de planejar entre um dia e outro, entre um post e outro? Quanto desses planos estamos executando e quantos, de fato, pretendemos executar?
Memento Mori, ecoa o ensinamento dos estoicos: lembra-te de que és mortal. A morte é inevitável e o que estamos fazendo enquanto ela não chega é o que define nossa história e nosso legado.
VALEU A LEITURA? Sim. Aparentemente, qualquer coisa que o José Saramago escreveu na vida é digna de ser lida e aplaudida. Não à toa recebeu o Nobel de literatura.
Por Rafael D’Abruzzo


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