Hoje falamos sobre A Vegetariana, de Han Kang, vencedora recente do Nobel de literatura. Já adianto que a digestão do livro é mais difícil que a de vegetais.

Estava com este livro na lista de leitura desde 2019, quando tive algumas aulas de coreano (um abraço para a Carol e suas aulas prandiais). Ela indicou o livro e ficou lá na lista, sempre esperando uma promoção que nunca vinha, aí este ano veio.
A Vegetariana, como consta na quarta capa do livro, “tem sido apontado como um dos livros mais importantes da ficção contemporânea. Uma história sobre rebelião, tabu, violência e erotismo escrita com a clareza atordoante das melhores e mais aterradoras fábulas”.
O livro é dividido em três partes (A Vegetariana / A Mancha Mongólica / Árvores em Chamas), cada uma narrada por um personagem diferente, mas todas giram em torno de Yeonghye, uma mulher aparentemente comum que decide parar de comer carne após ter sonhos violentos e perturbadores.
A primeira parte é narrada pelo marido de Yeonghye, um bosta homem medíocre e egoísta. Ele vê a decisão da esposa como absurda e inconveniente, pois rompe com as normas sociais da Coreia do Sul. A recusa dela em comer carne evolui para um comportamento cada vez mais anormal, levando a um confronto violento com a família, especialmente com o pai autoritário.
“Uma personalidade dessas, sem frescor, brilhantismo ou refinamento, me deixava confortável”.
Na segunda parte, o foco muda para o cunhado de Yeonghye, outro bosta um artista obcecado por ela desde que ele descobre que ela tem, ainda adulta, uma mancha mongólica, um sinal de nascença comum em recém-nascidos. Ele passa a enxergá-la como um objeto estético e simbólico, especialmente por causa de sua crescente rejeição do mundo material, que começou com não comer carne, mas vai se tornando um comportamento misantrópico e alheio. Essa obsessão culmina em uma relação perturbadora que faria Nelson Rodrigues ficar envergonhado e afrontado com tamanha indecência.
A última parte é narrada pela irmã de Yeonghye e, nela, vemos o colapso completo da protagonista: ela passa a acreditar que é uma planta e recusa qualquer tipo de alimento, buscando uma existência puramente vegetal com água e luz solar. Internada em um hospital psiquiátrico contra a sua vontade, sua condição levanta questões profundas sobre sanidade, liberdade e sofrimento. Passamos a ver Yeonghye como uma espécie de bebê, necessitando cuidados, alheio ao mundo e frágil.
OPINIÃO: Han Kang fez uma obra particularmente impressionante. Ela traz nuances da cultura coreana, episódios de violência explícitos e uma história envolvente que você não consegue parar de ler, apesar de se sentir mal quase o tempo todo. Comecei o livro numa noite e terminei na outra, sacrificando algumas horas de sono. Valeu totalmente a pena, o ritmo da narrativa é impecável. Pretendo reler um dia com mais calma agora que já sei como a história termina. Não é que você queira exatamente saber o próximo evento do livro, mas existe algo que te impele na leitura. Aquele “algo” que as grandes obras têm.
Para dar minha opinião sobre A Vegetariana, precisaremos entrar em detalhes da obra, mas esta não é uma história com grandes reviravoltas. O objetivo dela parece ser muito mais trazer reflexões sobre temas profundos, portanto não considerarei aqui os spoilers abaixo como nocivos.
Minha primeira impressão sobre a história foi que ela trata de violência física, social e psicológica contra a mulher, mas esta é a camada mais óbvia e rasa da história. É também sobre isso, claro, mas a questão da linha sanidade / insanidade vai tomando a obra conforme lemos.
A protagonista sofre violência desde sua infância até o fim da história: primeiro um pai violento que lhe batia, depois um marido apático que gosta dela justamente por ela ser conveniente e, inclusive, a estupra sem pudor algum no casamento após as recusas dela em ceder. Depois temos a figura do cunhado que abusa de seu estado mental, em seguida temos a irmã que a interna contra sua vontade e, por fim, os médicos do hospital psiquiátrico que a impedem de sair e passam os dias aplicando injeções e tentando forçá-la a comer.
Aqui entra o que achei mais desagradável do ponto de vista literário no livro: em momento algum temos a perspectiva da personagem principal, Yeonghye. Temos apenas opiniões sobre ela emitidas pelos três narradores, mas dela mesmo só temos fragmentos de sonhos e uma ou outra linha de diálogo. Yeonghye permanece um mistério para nós, apenas podemos sentir seu sofrimento e nos compadecer. Isto foi uma escolha consciente da autora, obviamente, mas conforme acompanhamos a história da protagonista, sentimos desconforto pois queremos saber o que ela de fato pensa sobre tudo isso.
“De repente, se deu conta de que nunca tinha vivido e ficou surpresa. Era verdade. Não tinha vivido de fato. Desde o tempo remoto da infância, tudo o que ela fizera foi aguentar”
O interesse dos cunhados por suas respectivas cunhadas traz o clássico confronto de você só quer o que não tem, algo que nos remete a Platão com o amor sendo a falta de algo, um amor que se concretiza na ausência do ser amado. Quando entramos na história do cunhado de Yeonghye, porém, esse amor é meramente erótico e torna-se obsessivo e doentio. A família toda é sacrificada pelos cunhados, ao final, de uma forma ou de outra, mas eles não são os únicos culpados. A violência começou com o pai das irmãs, muito antes, e escalou até essa completa desconsideração do Eu.
“Era essa a natureza do relacionamento chocho que viviam nos últimos tempos, como se fossem dois sócios ligados por um filho”.
Outro tema recorrente é o desconhecimento do outro. Os personagens vão se dando conta de que não conhecem seus cônjuges e seus familiares por estarem imersos em seus próprios problemas e por nunca terem buscado a personalidade real do outro, situada abaixo da epiderme aparente das máscaras sociais e familiares. Quando Yeonghye deixa de comer carne e começa a ter vontade própria, o marido não a reconhece. Quando o cunhado abusa de Yeonghye, a irmão não o reconhece como marido. Quando Yeonghye está no seu estágio final de loucura, a irmã não a reconhece. Conhecer o outro não é apenas ver a pessoa todo dia, é aprofundar na personalidade, o que jamais acontece nas vidas dos personagens até os eventos desencadeados pela protagonista.
“Isto era o que mais lhe pertubava: ver como o marido queria se livrar dela, como quem joga fora um relógio quebrado ou um aparelho defeituoso”.
Outro ponto interessante é que a escolha inicial de Yeonghye por não comer carne vem de um sonho que entendemos que será objeto talvez de uma fantasia moderna no melhor estilo Stephen King, mas não é isso. É, de fato, apenas um sonho perturbador com raízes na infância e no apagamento cotidiano. Porém, mesmo quando perguntam para a protagonista o motivo dela não querer comer carne, ela tenta explicar mas ninguém realmente se importa. O vegetarianismo aqui é, inclusive, uma circunstância estopim e não o mote do livro em si. A família não aceita a decisão dela de não comer carne, mas poderia ser outra decisão qualquer que contrariasse os costumes locais ou familiares.
Ao final, temos um aprofundamento na história da irmã de Yeonghye, que sempre foi independente e fugia da violência do pai por cuidar da irmã mais nova, o que aplacava a ira de seu pai sobre ela. Com o desenvolvimento da história, ela se questiona se o cuidado desde cedo com a irmã era de fato um cuidado altruísta e bondade ou se não era apenas um mecanismo de defesa contra a violência paterna. Ela sempre buscou ser uma pessoa boa, ajudar os outros e ser simpática, mas sentia-se tão oprimida quando Yeonghye e, ao final, temos o pertinente questionamento da irmã se não teria sido ela a enlouquecer caso Yeonghye não tivesse enlouquecido antes. São camadas e camadas de violência, especialmente contra a mulher, que são escancaradas no livro.
“O tempo, que é uma torrente tão justa que chega a ser cruel, levou em suas águas aquela vida tão certinha, construída ao redor da paciência”.
A história passa por temas como insanidade, opressão social, familiar, machismo, sexualidade, erotismo, tabus e suicídio, tudo sem perder a cadência e mantendo o leitor ávido por virar a página. É uma obra-prima, sem dúvida.
“Outra vez, passou a vista pelos objetos da casa. Não pertenciam a ela. Do mesmo modo que sua vida nunca tinha sido sua. (…) Foi nesse dia que percebeu que estava morta havia muito tempo. Que sua vida não passava de uma encenação ou de uma fantasmagoria”.
VALEU A LEITURA? Sim, definitivamente. É perturbador, desagradável e você sente vontade de tomar um banho com água sanitária durante a leitura, mas vale totalmente a pena.
Por Rafael D’Abruzzo


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