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Literatura, Resenhas Literárias e Dicas de Leitura

Está tarde para uma homenagem ao dia das mulheres? Espero que não! Hoje falamos sobre “Belas Adormecidas” escrito por Stephen King e seu filho Owen King. O livro é uma espécie de ode ao feminino por dois homens, com a sensibilidade característica de Stephen King. Vamos conhecer e, ao final, ter uma leve catarse contra um sistema opressor? Ebaaaa.

A trama se passa na pequena cidade de Dooling, nos Estados Unidos, onde surge uma estranha epidemia que afeta apenas as mulheres. Sempre que adormecem, elas ficam envolvidas por uma espécie de casulo que cobre seus rostos e depois seus corpos como um véu, levando-as a um sono profundo e inexplicável. Se alguém tenta acordá-las à força ou romper o casulo, elas despertam violentas e perigosas.

Ao mesmo tempo, Evie Black, uma mulher misteriosa e aparentemente imune à doença, aparece na região. Ela é presa após cometer um crime brutal, mas logo se torna o centro das atenções, pois pode ser a chave para entender o que está acontecendo. Com o tempo, a figura enigmática de Evie se torna central e carrega os acontecimentos.

Com o desaparecimento gradual das mulheres, a sociedade entra em um óbvio colapso. Os homens, privados de suas companheiras, mães, líderes e trabalhadoras, passam a enfrentar o caos: violência, disputas de poder e desintegração social.

Enquanto isso, as mulheres adormecidas despertam em um mundo paralelo, uma espécie de realidade alternativa onde precisam decidir se desejam retornar ao mundo dominado pelos homens ou permanecer nesse novo lugar, longe da presença (boa ou ruim) masculina.

OPINIÃO: Que eu sou fã de Stephen King não é novidade para nenhum de vocês, meus amados e incontáveis fãs. A parceria com o Owen King também foi bastante frutífera e o livro flui muito bem.

Como o(s) King(s) não sabem escrever pouco, este livro conta com quase 800 páginas, mas praticamente não há enrolações que poderiam facilmente ser cortadas, como em outras obras do Stephen King, ou excesso de verborragia. A história pede, de fato, bastante complexidade de personagens e situações.

A história em si, conforme sinopse acima, é bem interessante. O leitor fica curioso pra saber o motivo da tal epidemia do sono feminino, as razões de Evie Black, como as tramas pessoais se desenvolvem, os relacionamentos decadentes que permeiam a história e toda a parte detetivesca, mas o ponto central do livro é outro.

Os King escreveram um retrato fantasioso (mas surpreendentemente real) de como seria uma sociedade sem mulheres ou com pouquíssimas mulheres (elas vão adormecendo ao longo do livro). Isso não leva apenas ao imaginado caos de famílias sem ponto de apoio e trabalhos com pessoas a menos. Isso leva a dois pontos principais: o desespero e o ódio.

O primeiro ponto é o desespero. Ele é visto nos esposos, namorados, pais, filhos e amigos perdendo as mulheres importantes de sua vida para esse sono inexplicável e, em um segundo momento, é visto na busca por fazê-las ficarem em segurança. Segurança do quê, se elas estão dormindo? Exatamente do segundo ponto: o ódio.

Neste contexto da história, surge um grupo de pessoas que entende que as mulheres podem acordar violentas e, por “precaução” começam a incendiar as mulheres adormecidas, pois descobrem que os “casulos” são inflamáveis. Isso gera não só o receio dos homens que estão tentando proteger suas mulheres, mas dúvidas nas próprias mulheres, se faria sentido voltarem ao mundo real, estando em segurança num outro mundo longe da presença ameaçadora masculina.

Numa sociedade que (ainda) objetifica e explora econômica e psicologicamente as mulheres, em que a lógica do capital faz com que as licenças maternidades sejam curtas, raras e mal-vistas, em que ainda não há segurança para mulheres estarem sozinhas em nenhum ambiente, inclusive dentro de seu próprio lar, este livro ressoa a algo além da fantasia. A história tem ares de violência banalizada, ressoa ao despreparo de um sistema patriarcal para o empoderamento socioeconômico feminino e ao último recurso masculino de tentar manter o status quo à força.

O feliz dia das mulheres aqui tem um tom um pouco mais de alarme do que de congratulação. Sou pai de duas meninas que, espero, encontrem um mundo um pouco melhor do que hoje. Parece que andamos para trás, ou de lado, ou para frente a passos muito lentos. “Caminante, no hay camino. Se hace camino al andar“, disse Antonio Machado. Precisamos entender as razões de sempre optarmos pelo caminho da violência ao traçar nossos caminhos enquanto sociedade.

VALEU A LEITURA? Sim. Pela trama e pelo protesto.

Por Rafael D’Abruzzo

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