Hoje falaremos sobre Dom Casmurro, de Machado de Assis. Um livro amado por muitos e odiado por alguns incautos estudantes de ensino médio, sem dúvida é uma obra monumental da nossa literatura.
Breve nota de esclarecimento: não, eu não sou crítico literário. Não, eu não sou acadêmico de Letras, doutor, pós-doutor em Machado de Assis, realismo ou afins. Sou apenas um leitor leigo que vai dar sua humilde opinião sobre esse clássico baseado no que eu pensei sobre a leitura. Por favor, contenham o apedrejamento.
Breve sinopse COM SPOILERS. O livro conta a história de Bento Santiago (Bentinho), um garoto rico que se apaixona por Capitu e que tem como bom amigo Escobar. A história é contada por Bentinho, já idoso, que relata sua juventude e as razões pelas quais se torna fechado e até mesmo antissocial (ou “casmurro”). Bentinho cresce no Rio de Janeiro e tem uma amizade profunda com Capitu, filha de uma amiga de sua mãe, Dona Evarista. Esta, por sua vez, faz com que Bentinho prometa que se tornará padre contra a sua vontade. Bentinho e Capitu se apaixonam e ele logo começa a desconfiar da fidelidade de Capitu, principalmente por causa da amizade dela com seu melhor amigo, Escobar, que Bentinho conheceu no seminário que tanto Bentinho quanto Escobar abandonaram. Bentinho se casa com Capitu, mas a relação é marcada de forma seminal por desconfianças e tensões. O casal tem um filho e Bentinho vê semelhanças físicas com Escobar, em especial nos seus olhos, o que faz Bentinho acreditar que ele é filho de Escobar. Escobar eventualmente morre e Bentinho se afasta de Capitu, culpando-a pela traição, e eles acabam se separando. No fim da vida, Bentinho vive isolado, sem jamais ter a certeza se Capitu o traiu ou não.
Muito bem, eis o resumo, agora vamos para a resenha em si.

Li nesta edição com capa nem um pouco enviesada.
Qualquer um que tenha passado pelo ensino médio deve ter estudado minimamente essa obra que culmina na pergunta: Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Fique comigo até o final desta resenha para ver o porquê dessa pergunta ser irrelevante.
A história é marcada pela dúvida, e o leitor nunca sabe se as suspeitas de Bentinho são reais ou fruto de sua imaginação. Bentinho é o típico narrador não confiável e isso marca a experiência da leitura com a genialidade de Machado de Assis que, na humilde opinião deste autor, é o maior escritor brasileiro de todos os tempos.
Dito isso, confesso que eu nunca tinha lido Dom Casmurro (absurdo, ok, já sei). A leitura foi muito fluida e durou poucos dias, mas a história continuou comigo por bastante tempo. A posição de Capitu, como uma mulher decidida e inteligente, é reconhecida na literatura nacional e, por que não, mundial. Cumpre ressaltar aqui que personagens femininas fortes costumam incomodar ainda hoje diversas pessoas, como é o caso do nosso protagonista.
Bentinho tem tudo o que precisa em sua vida, exceto a liberdade para ser o que quiser. Sua vida é ditada, até a maioridade, pela vontade de sua mãe e a promessa feita a Deus de torná-lo padre. Essa vocação não é abraçada por Bentinho e ele consegue, com a ajuda de José Dias, um agregado da família, e Tio Cosme, outro personagem secundária, contornar a situação de forma engenhosa, “terceirizando” a promessa. Vale a leitura para entender como isso se deu na história.
José Dias, aliás, é o responsável por uma das frases mais famosas de nossa literatura tupiniquim ao afirmar que Capitu tinha “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”.
O olhar de Capitu é descrito por Bentinho como “olhos de ressaca”, que tragam o interlocutor para dentro, como a ressaca do mar, exercendo uma força hipnótica e causando vertigem.
Resumindo, Capitu era muita areia para o caminhaozinho de Bentinho. Ao menos no critério beleza. Bentinho, por sua vez, era muito ciumento e esse ciúme gerou um dos narradores mais interessantes da literatura mundial.
OPINIÃO: Ao terminar de ler Dom Casmurro, me vi pensando na história ainda por muitas semanas.
Se Capitu traiu ou não Bentinho, é irrelevante. O principal ponto da história, para mim, foi ver como o ciúme corrompe as relações e gera somente amargura e desentendimento. Toda a história é narrada sob a ótica de Bentinho e isso naturalmente faz com que nunca conheçamos, de fato, as demais personagens, especialmente Capitu.
A vida financeiramente tranquila de Bentinho é contrastada pelo evidente interesse e Escobar pela fortuna da família, o que também é apresentado de forma enviesada por Bentinho. É importante notar como o protagonista parece mudar muito pouco sua personalidade da infância à vida adulta, o que remete também a uma infantilidade frente à complexidade de emoções como o amor e a amizade, ambas vistas por ele com ressalvas e desconfiança.
A solidão do protagonista é verificada nos momentos finais (e iniciais) da obra como uma consequência direta dos seus atos, mas o protagonista não parece arrependido de seu ciúme. Pelo contrário, parece cada vez mais certo de que a sua versão dos fatos, a única conhecida por nós, está correta.
É interessante também ver como, para Bentinho, as teorias sobre Capitu e Escobar que são mais detalhadas e cheias de absurdos que confirmam suas hipóteses, ainda que contrariem a lógica, são as aceitas em detrimento do que seria mais simples e lógico. Uma espécie de navalha de Ockham invertida. É desgastante pensar como Bentinho e esse desgaste marca a leitura e gera a impressão de termos passado algum tempo na cabeça conturbada do protagonista.
Uma obra ímpar que merece o destaque que tem em nossa literatura.
VALEU A LEITURA? Sim.
Por Rafael D’Abruzzo



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