Retomando as resenhas aqui no site, estreamos com um título de peso. Vamos falar sobre “A Peste”, de Albert Camus.

Que eu gosto de filosofia, não é segredo para ninguém. Camus tem a capacidade de mesclar uma boa história com questões filosóficas que é de dar inveja a qualquer escritor amador (como eu, por exemplo). Dito isso, ao juntar literatura e filosofia com tanta competência, Camus foi alçado imediatamente para um de meus autores favoritos.
Eu li as obras do autor em E-book (editora Record) este ano, mas gostei tanto que fui buscar o box físico também da editora Record, abaixo:

Mas quem é Albert Camus? Escritor ganhador do Nobel de Literatura, filósofo e jornalista franco-argelino, nascido em 1913 e falecido em 1960, Camus é associado ao existencialismo, mas sua tese reside primariamente na questão do absurdo da condição humana: ou seja, o conflito entre o desejo humano por sentido e o silêncio irracional do mundo. Este tema é visto com detalhes nas obras “O Mito de Sísifo” que também li este ano, mas não farei resenha por se tratar de um ensaio filosófico e em “O Homem Revoltado”, que está na minha lista de leitura.
Vamos buscar um pequeno esclarecimento sobre o absurdo nas páginas de “O Mito de Sísifo”, abaixo:

A questão do absurdo permeia também “A Peste”, objeto desta resenha. Na obra, a cidade argelina de Orã é vitimada pela peste bubônica, uma doença extremamente potente que isola o local e muda completamente a rotina das pessoas (não, não temos saudades da pandemia por aqui). A obra acompanha diversos personagens e a forma como eles lidam com a nova situação na qual se veem inseridos.
Algumas obras podem ser lidas com pequenos spoilers, como é o caso de “A Peste”, em que as reflexões são, em geral, mais importantes do que a história em si, como ela se desenrola e como acaba. Optei por não dar spoilers significativos sobre a obra para preservar o leitor, mas haverá uma ou outra observação sobre o desenrolar da história. Alguns livros dependem completamente de um plot twist ou algo semelhante (vide Agatha Christie e livros de mistério em geral), este não é o caso.
“não posso dizer que ela tenha morrido. Apagou-se apenas um pouco mais que de costume e, quando regressei, já não estava mais lá.”
Vamos aos personagens: (1) Bernard Rieux (personagem principal), um médico que busca cuidar das pessoas sem questionar muito a fundo, num primeiro momento, as implicações sociais da condição; (2) Jean Tarrou, um visitante que acaba preso na cidade durante o isolamento e trabalha incessantemente para amenizar as consequências, enquanto reflete sobre a violência da condição humana; (3) Raymond Rambert, um jornalista que não consegue escapar de Orã e, ao final, acaba optando por permanecer no local para ajudar a população; (4) Joseph Grand, o reflexo do cidadão médio que fica travado na tentativa de escrever um romance, mas não consegue avançar na primeira frase; (5) Paneloux, um Padre que inicialmente interpreta a peste como castigo divino, mas que, ao presenciar o sofrimento e a morte longa e desamparada de uma criança, começa questionar sua própria fé; e (6) Cottard, uma personagem ambígua, instável e que vive à margem da sociedade, tenta o suicídio no início da história por medo de ser preso por um crime mas que, conforme a peste avança, sente-se seguro no caos e prospera com o contrabando.
“A peste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e até mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes.”
Conforme a história avança, diversas reflexões fazem-se necessárias para os personagens e para o leitor. Fica claro que, para Camus, o “mal” não é apenas algo externo (como a peste), mas também uma disposição humana que pode florescer e se adensar em tempos caóticos. Isso se vê na figura de Cottard, mas também na indiferença de alguns habitantes de Orã, que fecham-se em isolamento próprio ou familiar, gerando situações terríveis.
A impotência humana frente à realidade também fica evidenciada na figura de Grand, incapaz de avançar para a segunda frase de seu futuro romance, preso na ideia de que a primeira frase nunca está boa o suficiente.
Ao final, o Dr. Rieux conclui que “a peste não morre nem desaparece nunca”, pode permanecer adormecida, pronta para retornar. Ou seja, embora o “mal” (aqui simbolizado pela peste) seja recorrente na história humana e aparentemente inevitável, devemos responder com cuidado com o outro, solidariedade e inquietude interna, uma espécie de “revolta ética”, mesmo que não tenhamos esperança numa vitória definitiva contra esse mal.
“Rieux sabia o que pensava nesse minuto aquele velho que chorava, e achava, como ele, que este mundo sem amor era como um mundo morto e que chega sempre uma hora em que nos cansamos das prisões, do trabalho e da coragem, para reclamar o rosto de um ser e o coração maravilhado de ternura.”
OPINIÃO: A leitura de Camus tem sido, para mim, extremamente profunda e (talvez como planejado) dolorosa. Em “A Peste”, o autor alterna entre uma suavização da ambientação que permite a divagação filosófica e a exploração da desgraça humana, com detalhes, para afrontar o leitor a questionar sua própria ética interna. A cena da morte da criança que confunde a fé de Paneloux é terrível, precisei parar a leitura algumas vezes antes de prosseguir. Ao final, você se sente como o padre, questionando inclusive como tanto mal pode atingir mesmo os inocentes. É o absurdo de Camus em sua forma mais visceral.
O que me motivou a ler “A Peste” foi a leitura, há alguns anos, de “O Estrangeiro”, também de Camus. Esse último eu preciso reler para resenhar, pois é considerado a obra-prima do autor por muita gente. Gostei muito de ambas as histórias, mas “A Peste” fala mais alto em tempos pós-pandêmicos e ressoa com experiências de vida que dificilmente acharíamos factível ter há alguns anos.
Apesar da densidade dos temas, a prosa é fluida e agradável. Camus não cansa o leitor com divagações de parágrafos gigantescos e suas reflexões e sua filosofia estão nas pequenas trocas entre os personagens e curtas reflexões. É um livro de literatura, mas com uma carga filosófica pesada e que deve ser conhecida antes de se iniciar a obra para melhor compreensão do texto. A isto se propõe, também, esta resenha. Espero que tenham gostado.
VALEU A LEITURA? Sim, definitivamente.
Por Rafael D’Abruzzo



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