Hoje vamos falar de uma carta já marcada por aqui, o mestre do terror: Stephen King. A obra é Cujo, já adaptada para filme na década de 80 e, até onde pesquisei, com outra adaptação a caminho.

Se fosse um filme da sessão da tarde teria sido traduzido como: “Cujo – O Totó tá zuado.“
Eu nunca tinha planejado realmente ler esse livro, já sabia do que se tratava a história, por ser um ícone da cultura pop, mas aí, na Black Friday do ano passado, a versão em inglês apareceu por algo em torno de 5 reais no kindle. Não foi uma opção deixar passar e não me arrependi.
“(…) fear was a monster with yellow teeth, set afoot by an angry God to eat the unwary and the unfit.”
O livro se passa na cidade de Castle Rock, no Maine, e conta a história de um enorme e dócil são-bernardo (repisado várias vezes pelo autor que pesava quase 100kg) que, após ser mordido por um morcego infectado com raiva, transforma-se lentamente em uma ameaça mortal.
O romance acompanha, em paralelo, os conflitos pessoais de várias personagens, especialmente Donna Trenton e seu filho pequeno, Tad, que acabam presos em uma situação de sobrevivência extrema quando ficam encurralados pelo cão. Isolados num carro quebrado, sob um calor sufocante e sem comunicação com o mundo exterior, eles enfrentam o medo, o desespero e a luta pela sobrevivência enquanto os dramas pessoais se aprofundam.
A história não é sobre o cão raivoso, mas sobre as vidas das pessoas e como as escolhas levam às situações infernais na vida dos personagens. Stephen King em seu primor, resumindo.
Temos o casal cujo relacionamento está ruindo, a família com um pai (semi) abusivo, o adolescente que será objeto de disputa num relacionamento fracassado, o empreendedor que luta para manter o negócio rodando numa crise… personagens interessantes que se entrelaçam no enredo.
“But in high school the business of irrevocable choices began. Doors slipped shut with a faint locking click that was only heard clearly in the dreams of later years.”
E temos o Cujo, um cachorro que fica bem, mas beeeem ameaçador durante a história. Ele é a consolidação do medo no livro, o monstro, o horror. Meio cão, meio entidade, a figura de Cujo é diferente para cada um que com ele interage.
A história avança, os conflitos se aprofundam e Cujo enlouquece. Um roteiro simples, mas brilhante.
OPINIÃO: Cujo é um livro muito bem escrito. Não é um calhamaço, como estamos acostumados com as obras do autor, mas isso se dá pelos poucos personagens na história. Eles são bem explorados, mas para um livro do Stephen King até que são poucos.
Um dos pontos que gostei na leitura foi o modo como o autor descreve os pensamentos de Cujo. Por não ser um ser humano, a linha de raciocínio do cachorro é diferente dos demais personagens. Ele se refere aos donos como “o homem”, “a mulher” e “o garoto”. Ele vê o mundo e interage, mas conforme a raiva vai tomando conta do seu cérebro, seu raciocínio vai se tornando difuso e até sobrenatural. Ele só pensa em matar, sem distinguir quem ou o porquê do que está fazendo. O autor descreve a dor e o incômodo da doença de Cujo e, por mais que ele seja o monstro, você não consegue realmente odiá-lo, pois nao existe, de fato, livre-arbítrio em Cujo quando ele está tomado pela raiva.
Não teremos uma sessão de spoilers nessa resenha porque ela tiraria a graça da leitura. Este não é um clássico estudado cujas ideias valem mais do que a história em si. Dar spoilers aqui seria comprometer a qualidade da leitura futura. Por isso, esta curta resenha vai parar por aqui. Basta dizer que o final é corajoso e inesperado, o que é um ponto alto para o Stephen King, que tem alguns livros com final bastante questionável.
“The mother who had seemed to be disgusted and repulsed by all those around her, the well-meaning but ineffectual father, the schools, the friends, the dates and dances – they were all a dream to her now, as youth must seem to the old.”
VALEU A LEITURA? Sim. Um livro que eu não esperava nada e entregou tudo. Fui atrás de cobre e encontrei ouro. Recomendado.
Por Rafael D’Abruzzo


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