Hoje vamos falar não de um nem de dois, mas de TREZE livros! Estão empolgados, assim como eu? Obviamente não, mas vamos lá mesmo assim!
As Crônicas Saxônicas são uma série de livros de Bernard Cornwell, escritor inglês, que foi adaptada na série The Last Kingdom que eu (ainda) não vi. A série em si é bastante extensa, mas Cornwell está de parabéns na escrita. Não é fácil escrever 13 livros sobre o mesmo assunto, com o mesmo personagem principal e de forma coesa, especialmente em primeira pessoa, com um narrador pessoal e cuja personalidade deve acompanhar seu envelhecimento.

“Wyrd bið ful aræd. O destino é inexorável.”
A história acompanha a longa trajetória de Uhtred de Bebbanburg em meio à formação da Inglaterra durante os séculos IX e X. Nascido saxão, capturado e criado por dinamarqueses invasores da Grã-Bretanha, Uhtred cresce dividido entre duas culturas inimigas, conflito que molda toda a sua vida. Ao longo dos treze livros, sua vida se entrelaça com a luta dos reinos saxões contra as invasões dinamarquesas, especialmente a resistência liderada por Alfredo, o Grande, rei de Wessex, cuja visão de uma Inglaterra (Anglaterra, à epoca) unificada contrasta com o espírito pagão e rebelde do protagonista. Nos primeiros volumes, Uhtred emerge como guerreiro decisivo para a sobrevivência de Wessex, participando de batalhas fundamentais que impedem o domínio total dos nórdicos. Apesar de suas vitórias, ele raramente é recompensado de forma justa, pois sua fé pagã e seu temperamento indomável o colocam em constante atrito com a Igreja e a nobreza cristã. Essa tensão o leva, em diversos momentos, a agir como senhor independente ou até mesmo a se aliar novamente aos dinamarqueses, sendo um estranho em ambos os mundos. Com a morte de Alfredo, a história passa a explorar as dificuldades políticas e sucessórias que ameaçam o frágil projeto de unificação da Inglaterra. Uhtred continua sendo peça-chave na defesa de Wessex e na ascensão do rei Eduardo, o Velho, enfrentando traições internas, novas invasões e conflitos religiosos que testam sua lealdade. Paralelamente à grande narrativa histórica, desenvolve-se o arco pessoal do protagonista, marcado pelos romances e pela sua obsessão em recuperar Bebbanburg, a fortaleza de sua familia que lhe foi usurpada, símbolo de identidade, honra e pertencimento.
Em diversos momentos do livro, percebe-se que a história, na verdade, é sobre a unificação da Inglaterra, até porque o autor é um historiador. Cornwell também é o autor que melhor descreve batalhas que eu já li. Sua descrição de exércitos se enfrentando em paredes de escudo é realística e crua, mostrando toda a violência que, muitas vezes, é romantizada em histórias como esta.
Uhtred, com sua personalidade dividida pelas culturas dominantes da época, se vê diversas vezes numa teia de acontecimentos alheios à sua vontade e levado pelo destino.
“O que acontece com você, Uhtred, é o que você faz acontecer. Você vai crescer, aprender a espada, aprender a parede de escudos, aprender o remo… e então usará o que aprendeu para fazer sua vida boa ou ruim.”
Outro tema recorrente na obra é a intolerância religiosa, especialmente dos cristãos contra os pagãos:
“(…) nós, pagãos, raramente perseguíamos os cristãos. Como acreditamos que existem muitos deuses, aceitamos a religião de outra pessoa como assunto dela, ao passo que os cristãos, que insistem perversamente que só existe um deus, acham que é seu dever matar, mutilar, escravizar ou vilipendiar qualquer um que discorde. Dizem que isso é para o nosso próprio bem.“
Uhtred também é muito crítico no que diz respeito à hierarquia social. Nascido herdeiro, tornado escravo duas vezes em momentos diferentes, traído diversas vezes e odiado por vários motivos ao longo de sua vida, Uhtred vê na reputação e na força os principais meios de sobrevivência. Uma personagem muito bem trabalhada e versátil para levar uma história tão longa e detalhada como essa sem perder o entusiasmo.
OPINIÃO: Eu queria ler As Crônicas Saxônicas desde que li outra série do mesmo autor: as Crônicas de Arthur. A história do Rei Arthur, contada em três livros, também é magistralmente escrita, mas a história de Uhtred é mais “palpável”. Existe muita mitologia em volta da figura de Arthur, sendo incerta até mesmo sua existência. Assim como “Stonehenge”, outro livro do Cornwell, As Crônicas de Arthur tem uma vasta especulação até mesmo em cima da realidade da época, pouco documentada e ainda em descoberta arqueológica em vários aspectos.
No caso das Crônicas Saxônicas, a realidade da época era já muito bem documentada por padres e monges. Desta forma, a inserção de Uhtred na história documentada é feita de forma orgânica na maior parte das vezes e é crível em sua totalidade. Era comum, por exemplo, que prisioneiros crianças se integrassem às famílias de seus captores, como Ragnar faz com Uhtred e como Uhtred faz com outros ao longo de sua vida. Seu envolvimento com a realeza é um recurso de roteiro valioso para mover a história, sendo muito bem arquitetado.
Ao final de cada livro existe uma nota histórica do que é real, do que foi inventado e de como foi adaptado. Desta forma, o leitor não se sente “enganado” pelo autor, pois ele é intelectualmente honesto com os leitores que podem procurar mais sobre a história real, o que me peguei fazendo mais vezes do que eu esperava.
Outro ponto alto para os nerds de história (assumo que é o meu caso) é que o autor usa deliberadamente nomes de locais e títulos da época e traz diversas curiosidades linguísticas da evolução da ilha britânica, desde os celtas (“o povo antigo”), passando pelos romanos, pelos quais Uhtred nutre evidente fascinação, até chegar nos povos da época da história: saxões, galeses, escoceses, dinamarqueses, noruegueses e frísios. Uhtred chega mesmo à conclusão de que os romanos foram o ápice da civilização até então e o mundo à sua época era já decadente. Ele entende isso como um sinal do declínio que antecederia o Ragnarok.
Os livros são, acima de tudo, uma viagem maravilhosa e um escapismo literário de primeira, fazendo você se imaginar, com detalhes, na realidade de mil anos atrás.
VALEU A LEITURA? Sim, foi muito gostoso e relaxante ler essa série e, de quebra, aprendi bastante sobre a história e os costumes da época e do local. Valeu cada segundo de leitura.
ATENÇÃO: abaixo virão SPOILERS sobre a obra. Se você não quer saber detalhes da história, esta resenha acaba por aqui. Muito obrigado por sua leitura.
Nos volumes finais, Uhtred finalmente reconquista Bebbanburg, mas precisa lutar para mantê-la enquanto a Inglaterra se aproxima de sua unificação definitiva. Já velho, ele assume o papel de senhor da guerra e testemunha a consolidação de um reino pelo qual lutou durante toda a vida, ainda que jamais tenha sido plenamente reconhecido por ele e tenha, muitas vezes, agido contra a sua vontade, movido por juramentos. A saga se encerra com uma reflexão melancólica sobre destino, memória e sacrifício, mostrando que a Inglaterra nasceu não apenas de reis e tratados, mas do sangue, das perdas e das contradições de homens como Uhtred, que viveram entre a espada, a fé e o destino.
“(…) então encarei o salão iluminado por velas onde os homens me olhavam. Eu conhecia muitos deles, mas para os mais jovens era um estranho, uma relíquia, um nome do passado. Eles ouviram falar de mim, ouviram as histórias de homens mortos e exércitos derrotados e viam as argolas brilhantes nos meus braços, viam as cicatrizes de guerra no meu rosto, mas também viam a barba grisalha e as rugas profundas que marcavam o meu rosto. Eu era o passado e eles eram o futuro. Eu não importava mais.”
A conclusão da história é satisfatória, faz o leitor se sentir grato pelo tempo de leitura e é condizente com os eventos e com a personalidade de Uhtred.
A história já deixou e deixará mais saudades. Pretendo reler um dia. Enquanto isso, vou assistir a série que, ao que me consta, foi bem feita e aceita. O último livro foi dedicado ao ator que interpretou Uhtred na série, então entendo que Bernard Cornwell tenha gostado da adaptação, o que é um otimo indício de ser boa.
Até a próxima!
Por Rafael D’Abruzzo


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